O Funk Brasileiro vai ocupar um lugar de protagonismo em uma das principais feiras de música do planeta. Entre 21 e 25 de outubro, a 32ª edição da Womex - The World Music Expo, realizada em Las Palmas de Gran Canária, na Espanha, recebe o projeto Baile Funk Invasion, uma exposição imersiva dedicada à trajetória, à diversidade e à expansão internacional do gênero nascido nas periferias do Rio de Janeiro.
A iniciativa é apresentada pela Embratur (Empresa Brasileira de Turismo) e assinada pelo Favela Sounds, maior festival de cultura periférica do país. Trata-se do primeiro apoio institucional do tipo concedido ao Funk pela estatal de turismo, que passa a tratar o gênero como um dos principais símbolos da identidade brasileira contemporânea e como ativo estratégico para atrair visitantes estrangeiros, sobretudo o público jovem.
Uma viagem por mais de três décadas de história
Instalada em um espaço de 24 metros quadrados dentro do mercado da Womex, a exposição reconstrói mais de 30 anos de desenvolvimento do Funk através de arquivos históricos, depoimentos, vídeos e manipulações gráficas. A narrativa é dividida em três etapas: o nascimento do gênero no Rio de Janeiro e seus primeiros bailes e equipes de som; sua disseminação pelas diferentes regiões do Brasil, com a multiplicação de subgêneros; e, por fim, seu alcance internacional atual, em diálogo com cenas da Europa, da África e da América Latina.
Com curadoria e direção criativa de Guilherme Tavares e Amanda Bittar, a mostra conta ainda com visuais do artista plástico Dnego Justino, edição de Ada Souza e motion design de Thiago "Penahx" Macedo. A expectativa é que mais de três mil profissionais do mercado musical global circulem pelo espaço durante os cinco dias de feira, entre agentes, produtores, curadores de festivais e jornalistas especializados.
Experiências interativas e um mapa da diversidade nacional
Além do acervo histórico, o projeto propõe duas vivências práticas. Em "Let's dance passinho", a bailarina Arielle Macedo, coreógrafa de Anitta há mais de dez anos, ensina ao público uma coreografia original criada para uma faixa inédita do DJ paulista Rafinha MPC - o visitante é filmado reproduzindo os passos e recebe o vídeo por QR code. Já a segunda experiência, assinada pelo próprio Rafinha MPC, convida o público a manusear uma MPC, equipamento central na produção e no improviso dos DJs de Funk.
Um mapa do Brasil completa a exposição, apresentando a pluralidade de subgêneros do Funk hoje espalhados pelo país e suas diferentes referências estéticas e musicais - um recorte que reforça como o estilo deixou de ser um fenômeno restrito ao eixo carioca para se tornar linguagem nacional.
Protagonismo brasileiro em disputa no cenário global
Para Roberto Gevaerd, diretor de Gestão e Inovação da Embratur, o movimento atual do Funk lembra a trajetória histórica do samba, que também enfrentou preconceito antes de se consolidar como símbolo cultural brasileiro no exterior. Amanda Bittar, diretora-geral do Favela Sounds, destaca que o crescimento do consumo internacional do gênero também expõe um risco: o de que sua história seja contada sem o devido reconhecimento aos criadores originais das favelas brasileiras.
Guilherme Tavares reforça esse ponto ao observar que o Funk já é referência para DJs e produtores de música eletrônica na Europa e no Reino Unido, mas que a presença brasileira na produção e difusão do próprio estilo ainda é pequena diante da apropriação feita por artistas de outras nacionalidades - incluindo o fenômeno do phonk, muitas vezes associado a produções ligadas à inteligência artificial.
Debate ao vivo discute o futuro do gênero fora do Brasil
A programação inclui ainda um debate especial transmitido pela Rádio WOMEX, em parceria com a emissora espanhola RBL (Rádio Banda Larga), intitulado "Is Baile Funk here to stay?". O encontro acontece em 22 de outubro, das 19h15 às 20h45 (horário de Greenwich), com transmissão ao vivo para todo o mundo.
- Deize Tigrona, uma das vozes fundamentais da história do Funk carioca, atualmente radicada em Marselha, na França
- Roberto Gevaerd, diretor de Gestão e Inovação da Embratur
- Allexia Galvão, Supervisora de Economia Criativa da Embratur
- Mediação de Guilherme Tavares, diretor artístico do Favela Sounds e cocurador da exposição
A discussão deve abordar os desafios para ampliar a presença de artistas e produtores brasileiros nos circuitos internacionais do gênero que eles mesmos criaram - um debate que ganha urgência à medida que o Funk se firma como uma das principais exportações culturais do Brasil no mercado musical global.